Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir.
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir.
Por me deixar respirar, por me deixar existir.
Pelo prazer de chorar e pelo “estamos aí”!
Pela piada no bar e o futebol pra aplaudir.
Um crime pra comentar e um samba pra distrair.
Por essa praia, essa saia, pelas mulheres daqui.
O amor malfeito depressa, fazer a barba e partir.
Pelo domingo que é lindo, novela, missa e gibi.
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir.
Pela fumaça, desgraça, que a gente tem que tossir.
Pelos andaimes, pingentes, que a gente tem que cair.
Por mais um dia, agonia, pra suportar e assistir.
Pelo rangido dos dentes, pela cidade a zunir.
E pelo grito demente que nos ajuda a fugir.
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir.
E pelas moscas-bicheiras a nos beijar e cobrir.
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir…
Deus lhe pague!
(Chico Buarque de Holanda)
por Cinthia Ferreira










