terça-feira, 22 de setembro de 2026

SETEMBRO AMARELO: A Depressão Sorridente, quando a Tristeza se esconde atrás de um Sorriso



 Você encontra uma amiga que não está em seu melhor momento, pergunta-lhe como está e ela responde que “bem”, enquanto esboça um sorriso. Sem dúvida, você sabe que ela se encontra mal, que tem problemas e que muitas preocupações rondam sua mente. Você se dá conta de que seu sorriso é fingido, mas, ainda assim, aceita e muda de assunto.

Infelizmente, esta situação é bastante comum. Na verdade, todos nós tentamos, em algum momento, esconder a tristeza, o estresse e as preocupações por trás de um sorriso. No entanto, quando nos escondemos por trás de uma máscara de tranquilidade e satisfação, impedimos que as pessoas nos ajudem e é mais fácil para nós nos afundarmos na fossa da depressão.

Quando a depressão sorri…

Nós tendemos a pensar que a pessoa deprimida não pode levar uma vida normal, que fica apenas na cama e não consegue ir para o trabalho, que chora fácil e se arrasta ao caminhar, assumindo uma postura curvada que denota sua tristeza, que se isola indo a um parque, uma praia (onde muitos pensam estar bem, estar curtindo o momento, mas na verdade o ato é uma fuga, um momento de reclusão, de isolamento). 


No entanto, esta imagem é apenas um clichê, pois cada pessoa é um mundo e lida com a depressão de forma diferente. Na verdade, você sabia que aproximadamente 71% daqueles que sofrem de depressão tentam esconder isso?

Alguns estão deprimidos, mas conseguem ser funcionais e até mesmo animados em suas vidas diárias. São pessoas que carregam sua dor dentro de si e não a exteriorizam. Essa dor as consome lentamente, até que chega um momento em que elas desmoronam, porque não suportam mais o peso da máscara que construíram e usaram por meses ou até mesmo anos.

De fato, no campo da psicologia, existe o que é conhecido como “depressão sorridente”. Essa pessoa tem uma aparência de normalidade e até de felicidade, porque ela vive os sintomas da depressão dentro de si, e não os expressa, mas se esforça em escondê-la. Dessa forma, os outros podem achar que ela tem uma vida perfeita.

Por que a pessoa esconde sua depressão?

As causas são diversas, mas, em geral, o sorriso é equivalente a um mecanismo de defesa, uma máscara que serve para esconder um estado.

A pessoa tem vergonha de seu problema. Não podemos esquecer que a maioria dos problemas mentais ainda está coberta por um estigma social, então muitas pessoas não querem que os outros saibam que estão deprimidos. De fato, a depressão em particular é considerada por alguns como falta de força de vontade e falha de caráter, então é compreensível que se você tiver esse preconceito, tente esconder sua depressão, considerando-a como um “defeito”.

Não quer reconhecer a depressão. Em alguns casos, a pessoa não quer reconhecer sua condição e esconde-se atrás de uma aparência de normalidade, talvez esperando que a depressão desapareça por conta própria. Nesses casos, ocorre uma negação e o sorriso é um mecanismo de autoafirmação, pelo qual ela diz a si mesma que não é para tanto, que, na realidade, ela se sente bem.

Não quer preocupar os demais. Algumas pessoas tendem a manter problemas para si mesmas, são introvertidas por natureza e não querem preocupar seus entes queridos com suas dificuldades. Nesses casos, elas fingem estar bem, se vestem bem, se apresentam bem para não se tornar um fardo ou uma preocupação para os outros mas no fundo, estão destruídas.

Preocupam-se muito com sua imagem. Há pessoas que pensam que os outros a valorizam e estimam apenas por causa da imagem que transmitem. Por isso, tentam fingir que está tudo bem, esconder a depressão e seu verdadeiro “eu”, tornando-se personagens que encenam todos os dias no palco de um teatro.

Quem é mais propenso a sofrer de depressão sorridente?

> Pessoas introvertidas, que tendem a guardar seus problemas ou têm dificuldade em falar sobre suas emoções.

> Pessoas perfeccionistas, que exigem muito de si e acreditam que não podem falhar em nenhuma área da vida.

> Pessoas hiper-responsáveis, que acreditam que carregam o mundo em seus ombros e pensam que, se entrarem em colapso, uma catástrofe de proporções épicas ocorreria.

Os perigos da depressão sorridente

A pessoa deprimida que escolhe sorrir sofre, mas tenta viver como se não sofresse. No entanto, emoções e sentimentos nunca devem ser ignorados ou escondidos, porque isso não os fará desaparecerem. 


Assim, aquela pessoa que talvez finge escapar da depressão, na realidade está alimentando-a. A longo prazo, essa atitude terá seu preço. De fato, há muitos casos de tentativas de suicídio que pegam os amigos e até mesmo membros da família completamente desprevenidos.

Por outro lado, a pessoa que tenta esconder a depressão geralmente se encarrega de ocupar totalmente sua agenda, de tal modo que acaba levando um ritmo de vida frenético que provoca grande desgaste. 


Essa necessidade de exagerar todos os dias acaba fazendo com que elas desmoronem emocionalmente, porque não é possível fingir todos os dias e nem com todo mundo. Mais cedo ou mais tarde, a irritabilidade, o cansaço, a tristeza e a tensão encontram uma brecha para vir à tona.

O problema é que, nesse momento, a pessoa se vê cara a cara com sua realidade e sente que está em um beco sem saída e sem ninguém que possa ajudá-la. Por esse motivo, pode chegar a atentar contra sua vida.

Fingir o sorriso não é a solução

Um estudo particularmente interessante, conduzido pela Michigan State University analisou o impacto de um falso sorriso em nosso humor. 


Esses psicólogos seguiram um grupo de motoristas por duas semanas e descobriram que, quanto mais sorrisos fingiam, pior ficava seu humor quando voltavam para casa, em um estado de ânimo marcado por irritabilidade, raiva e tristeza.

Portanto, é importante estar ciente de que as emoções negativas não desaparecem por si mesmas, elas devem ser enfrentadas. Esconder ou evitar o problema não fará com que ele seja corrigido. Além disso, é preciso saber que a depressão não é apenas resolvida dentro de um consultório de psicologia. A família e os amigos podem desempenhar um papel importante, desde que assumam uma atitude compreensiva e o apoiem.

Por outro lado, se você conhece alguém que está tentando esconder a depressão por trás de um sorriso, por trás de um celular, por trás de uma rede social (onde tudo parece perfeito), fale com essa pessoa. 


Não a pressione para lhe contar a situação, pois assim ela provavelmente se fechará ainda mais. Em vez disso, mostre sua vulnerabilidade e conte seus problemas. 


Dessa forma, você será capaz de se conectar emocionalmente a ela e será mais fácil que, ao se identificar com seus problemas, ela lhe conte, por sua vez, suas próprias dificuldades.


Traga (ou pelo tente) para o mundo real, estimulando essa pessoa a sair do seu casulo, do seu mundo onde supostamente se sente protegida, mas que na verdade se entrega na proteção da solidão.

Terminamos (por enquanto) essa matéria que na verdade é um grande alerta para todos nós (pois podemos ter o gatilho e passar a viver em nós esse grave problema), com algumas mensagens que poderão sim nos ajudar.



Texto original: Rincon Psicologia, traduzido e adaptado por Marcela Jahjah, da equipe Fãs da Psicanálise
Texto adaptado e pesquisa: Pery Salgado (jornalista)
Imagens: arquivo CULTURARTE
Realização: PR PRODUÇÕES






segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Beleza negra em destaque: a estética como forma de resistência



 Hoje, esse cenário muda a cada dia, impulsionado por uma nova consciência coletiva que valoriza os traços, os cabelos e os tons de pele que antes eram rejeitados. A estética negra se transformou em símbolo de resistência, identidade e amor próprio. É um movimento que vai além da aparência: é sobre pertencimento, poder e liberdade.

Durante décadas, a ideia de beleza foi moldada por padrões eurocêntricos. Pele clara, cabelos lisos e traços finos eram vistos como sinônimo de elegância e aceitabilidade. 

Esse modelo dominante deixou marcas profundas em muitas pessoas negras, que cresceram sem se ver representadas na mídia, na moda e até mesmo nas bonecas com as quais brincavam. O resultado foi uma ferida silenciosa na autoestima coletiva. Mas, felizmente, essa história está sendo reescrita.

A estética negra como forma de resistência

Assumir o cabelo crespo, usar tranças, deixar o tom da pele brilhar ao natural ou celebrar os traços largos não é apenas uma escolha estética. É um ato político. 

Cada cacho, cada trança e cada batom vibrante usado com orgulho são manifestações de resistência contra uma estrutura que tentou, por séculos, apagar identidades.

Nos anos 1970, movimentos como o “Black is Beautiful” já ecoavam o poder dessa estética. O cabelo afro, volumoso e natural, se tornou um símbolo de orgulho racial. 


No Brasil, esse movimento se fortaleceu nas comunidades periféricas e nas rodas culturais, onde o corpo e o cabelo negro começaram a ser reconhecidos como expressões de beleza, força e ancestralidade.

Hoje, as redes sociais desempenham um papel fundamental na amplificação dessa voz. Influenciadoras negras, modelos, artistas e criadoras de conteúdo estão ocupando espaços que antes lhes eram negados, mostrando a diversidade e a riqueza da beleza negra em todas as suas formas. 


Elas se cuidam, aparecem, inspiram meninas e mulheres a se olharem no espelho com carinho e a perceberem que sua imagem é motivo de orgulho, não de negação.

A valorização dos traços e dos cabelos

O cabelo sempre foi uma parte importante da identidade negra. Ele carrega histórias, simbolismos e conexões com o passado. 


No continente africano, antes da colonização, o penteado representava o clã, o status social e até o estado civil de uma pessoa. Ao longo do tempo, o cabelo crespo e volumoso passou a ser marginalizado, mas hoje ele retoma o seu lugar de destaque com orgulho e consciência.

Assumir o cabelo natural é um gesto poderoso de autoconhecimento e resistência. Muitas pessoas relatam que a transição capilar vai muito além da estética: é um processo emocional e libertador. Cortar as partes alisadas e deixar o cabelo crescer livre é uma forma de reencontro com quem se é de verdade.

Os traços também ganham valorização nesse processo. O nariz largo, os lábios volumosos e os olhos marcantes são celebrados como símbolos de beleza e identidade. 


A maquiagem voltada para peles negras cresce no mercado, refletindo a necessidade de inclusão real. Marcas que antes ignoravam essa diversidade hoje reconhecem a importância de representar todos os tons e tipos de beleza. Essa mudança não é apenas comercial, é cultural.

O poder do tom de pele e da representatividade

Durante muito tempo, a ausência de pessoas negras em campanhas publicitárias e na mídia fez com que o padrão de beleza fosse limitado e excludente. Ver uma pele escura estampando capas de revistas, comerciais e passarelas é algo recente, mas de enorme impacto. Cada imagem de uma pessoa negra sendo celebrada é uma mensagem de validação coletiva.

A representatividade tem o poder de transformar a autoestima. Quando crianças negras veem pessoas parecidas com elas em posições de destaque, elas aprendem a se reconhecer como bonitas, capazes e merecedoras. A mídia, a moda e o entretenimento estão, pouco a pouco, entendendo o papel que desempenham na formação da identidade social.

Essa valorização também está presente na arte, na música e na fotografia, que hoje se dedicam a retratar a beleza negra de forma digna e plural. Artistas contemporâneos destacam o brilho da pele, a força do olhar e a ancestralidade que habita cada traço. Essas imagens não apenas inspiram, mas reparam décadas de invisibilidade.

A autoestima coletiva e o impacto social

O movimento de valorização da estética negra não beneficia apenas o indivíduo. Ele tem um impacto direto na autoestima coletiva, fortalecendo comunidades inteiras. Quando um grupo antes marginalizado passa a se enxergar de maneira positiva, há uma transformação social profunda.

A autoestima coletiva nasce quando as pessoas reconhecem que não estão sozinhas em suas lutas e celebrações. Ao ver outras pessoas negras assumindo seus cabelos, seus corpos e seus traços com orgulho, cria-se uma corrente de encorajamento. Essa conexão fortalece o sentimento de pertencimento e combate o racismo estrutural que ainda tenta impor padrões excludentes.

Além disso, a valorização da beleza negra influencia a economia e a cultura. O mercado da moda, da cosmética e da publicidade passa a se adaptar a uma nova demanda que exige inclusão real e respeito à diversidade. Isso gera oportunidades, emprego e visibilidade para empreendedores e profissionais negros que, por muito tempo, ficaram à margem.

Caminhos para o futuro

Celebrar a beleza negra é reconhecer a importância da diversidade em sua forma mais autêntica. O futuro aponta para uma estética mais livre, onde cada pessoa possa ser o que é sem medo ou julgamento. A resistência estética continuará sendo uma ferramenta poderosa de transformação, quebrando padrões e reconstruindo narrativas.

A nova geração cresce em um ambiente mais representativo e consciente, onde a cor da pele e o tipo de cabelo não definem o valor de alguém. Ainda há muito a ser feito, mas os avanços já são visíveis e inspiradores. A beleza negra segue em destaque, ocupando espaços e mostrando ao mundo que não existe um único padrão de beleza, mas uma infinidade deles.


A estética negra é resistência, é arte, é afirmação. É um lembrete diário de que a beleza verdadeira está em ser quem se é, com orgulho e amor.

Texto e pesquisa: Mariana Nascimento (Colunista do Portal Afro - Beleza | Notícias - Finanças | Tecnologia)
Modelos: Michelly Oliver (servidora pública municipal, influenciadora e profissional de estética e beleza), Mey Mistica (modelo e influenciadora), Sol Vega (modelo e atriz), imagens arquivo CULTURARTE
Adaptações e diagramação: Pery Salgado (jornalista)
Realização: PR PRODUÇÕES