segunda-feira, 26 de maio de 2025

'CHELLA' É A MUSA DE MARICÁ 2025


 O nome dela é Marcela Fernandes de Menezes (27 - apelido e nome de trabalho - CHELLA). Nascida e
m São Gonçalo está em Maricá há 5 anos. Solteira, sem filhos, é professora formada e hoje, vamos contar um pouco da história dessa jovem - NEGRA (com muito orgulho) e super batalhadora, que passou por problemas sérios, mas soube superar e a cada dia vem correndo atrás dos seus objetivos.

CULT: Olá Chella, uma alegria conversar com você e abrir o espaço do CULTURARTE para que nossos leitores conheçam você e o seu belo trabalho que hoje executa. Mas antes, quero saber como foi sua infância.

CHELLA: Olá, a alegria é minha e agradeço a oportunidade de estar aqui nas páginas do CULTURARTE. Bom, minha infância foi relativamente tranquila. Com o meu pai morei até os 4 anos e depois morei só com a minha mãe e sai de casa com 19 anos.

CULT: Passou por algum tipo de dificuldade?

CHELLA: Sim, sofri um acidente sério e fiquei com 35% do meu corpo queimado. Eu tinha 9 anos da época, e como eu morava com a minha mãe e meus 2 irmãos, um certo dia o meu irmão Maicon precisou ir as pressas para o hospital com fortes dores da barriga e precisei ficar com a minha tia, e por uma aventura de criança, o meu primo foi brincar com o álcool e acabou atingindo eu e mais uma menina. Sendo que o meu foi o mais grave pois pegou nas pernas, rosto, a parte de trás  das minhas penas até a polpa da meu bumbum e com isso  fiquei um ano internada sem os movimentos das pernas.

Deus e o incentivo da minha família que esteve comigo e principalmente da minha Mãe Fabia Fernandes que esteve sempre comigo no hospital, foram fundamentais para minha recuperação. 

E como o médico disse que para eu sair do hospital (pois não tinha mais nada o que ser feito), eu precisava mesmo era comer bastante que eu iria melhorar e com o tempo fui fazendo tratamento indo fazer as revisões no Rio e também cuidados em casa com a ajuda da minha família. Tenho algumas marcas ainda e uma perna minha que chega um certo momento que não aguento ficar com ela muito esticada devido a pele ser muito fina e sempre ter que usar a proteção de protetor solar.

CULT: Você falou que saiu de casa aos 19 anos. Porque e o que foi realizar?

CHELLA: Eu sai de casa com 19 anos pois eu assumi a minha sexualidade para a minha mãe e como eu queria ficar muito com a minha companheira e minha mãe não aceitava, eu preferi sair de casa, mas eu já era formada e já trabalhava na minha profissão de professora.

CULT: Que show, adorei saber isso. Vocês ainda estão juntas?

CHELLA: Obrigada, já namorei meninos mas passei a gostar de meninas com 13 anos de idade com a minha primeira namorada e a minha segunda foi a que me separei recentemente. Hoje infelizmente não estamos juntas, mas ela é o grande amor da minha vida. A principio larguei tudo aonde eu morava para vim para Maricá morar com ela, mas infelizmente não estamos mais juntas. Como está muito ressente e vivemos juntas por nove anos pois conheci ela com os meu 17 anos, eu ainda aguardo pelo retorno deste meu grande amor.

CULT: Retornará se Deus permitir. Hoje você mora sozinha? Seu local onde confecciona seus produtos é a sua casa?

CHELLA: Sim, hoje eu moro sozinha e confecciono tudo em casa.

CULT: Show, mas você se formou como professora. Já lecionou?

CHELLA: Lecionei sim, e trabalhei no Jardim Catarina no Centro Educacional Coutinho, tinha 19 anos quando trabalhei lá.

CULT: E quando foi a virada de chave para o trabalho que você executa hoje e o porque deste tipo de trabalho, foi antes de vir para Maricá?

CHELLA: Não eu já estava em Maricá. Eu sempre gostei de fazer bolos e sempre dei um jeitinho para fazer para minha família. E a minha virada de chave foi quando me mandaram embora da antiga loja Casa que tinha no centro de Maricá. Decidi pegar o dinheiro que iria receber da rescisão e fiz um curso de Bolos no Alcântara, em São Gonçalo.

CULT: Após o curso de Bolos, você caiu dentro? Conte um pouco sobre isso e efetivamente quando começou e como faz suas vendas?

CHELLA: Quando eu terminei o curso, fui pegando algumas encomendas mas continuei trabalhando de carteira assinada e vendendo os doces no trabalho. Ai eu estava trabalhando na loja Bliss. Sai da loja Bliss fui trabalhar no CAPS lll mas continuei trabalhando e vendendo doces por lá. E quando me mandaram embora depois de um ano e quatro meses aí sim eu resolvi viver só de doces.

CULT: E hoje se dedica unicamente ao seu trabalho? Produz todos os dias e sai para vender todos os dias? Alguém mais te ajuda?

CHELLA: Sim! Hoje estou me dedicando unicamente ao meu trabalho e começo a trabalhar a partir da terça feira. Na segunda feira, compro os matérias produzo e começo a trabalhar na terça, aí vou de terça até sexta vendendo os doces.

CULT: Show, mas sempre na rua indo direto aos clientes, ou recebe encomendas e vai fazer as entregas? Aproveite para informar seus canais de venda e seus quais seus produtos, por favor.

CHELLA: Como eu já tenho os meus clientes fixos, eu já saio e vou indo diretos à eles, mas como sempre estou postando nos grupos também e por querer mas clientes, eu saio entrando em lojas que nunca tinha entrado e oferendo o meu trabalho e por postar nos grupos. alguém acaba me marcando e pedindo. aí vou e faço a entrega. 

Eu vendo no Mombuca Futuro, vendo bastante pelo WhatsApp quando posto, vendo nos postos de saúde, na Casa do Trabalho, vendo no meu antigo trabalho no Caps 3, vendo em algumas lojas como loja Bliss, Santa Lolla, loja de móveis e eletrodomésticos, vendo nas ruas também que as pessoas me veem e perguntam, vendo nas barbearias e cabeleireiros.

Os meus doces que eu vendo são torta de limão, torta de maracujá, vendo bolo no pote, vendo brigadeiro, coxinha de morango, vendo torta salgada e tem umas encomendas que eu também recebo por fora que eu faço. Bolo grande, faço bem casado, faço docinhos, faço chocolate... assim sucessivamente o que me pedirem!

Nossa linda guerreira é botafoguense, sua cor predileta é a rosa, adora beber sucos, cerveja e refrigerante e para se alimentar para manter muita energia para trabalhar e andar muito (sim, ela faz suas entregas à pé), ela prefere macarrão, bobo de camarão, estrogonofe e bife com batata frita.

Dona de um corpo esculpido e de um sorriso encantador, Chella, no trabalho usa tênis, short de malha e blusa com sua logo. Porém, para passear, dependendo do local que vá, usa tênis, shortinho, blusa ou vestido com um belíssimo salto alto. Para dormir, nada melhor do que um pijaminha bem confortável. Adora curtir uma praia e passear em shopping para aproveitar e ir ao cinema. Em casa curte TV e Internet.

CULT: Seus sonhos e desejos

CHELLA: Sonho terminar o meu carrinho de doces que já está quase pronto e abrir a minha loja, e desejo ter a minha própria casa.

CULT: Deixe um recado para as meninas como você, que querem ter seu negócios próprios.

CHELLA: Mesmo que pareça ser difícil, não desacredite dos seus sonhos e confie que você é Capaz!!!

CULT: Menina, foi uma alegria te receber aqui e conhecer menina tão simpática, linda e guerreira. Quer deixar mais algum recado? Alguma mensagem para seu grande amor?

CHELLA: Primeiro dizer que foi uma alegria participar desta entrevista, gostei muito, obrigada pela grande oportunidade.  Como aqui em Maricá eu não tenho a minha família pois eles moram em São Gonçalo eu queria por um agradecimento a uma pessoa também: gostaria de agradecer à minha família por sempre estar comigo em tudo. A minha mãe Fabia Fernandes que tem me ajudado muito e minha mãe do coração a Maria de Fátima Caciano, por me apoiar nos meus sonhos e me ajudar junto com a minha família.

Para o meu grande amor (que sinto muito sua falta), falar de você é como receber, esperar um lindo presente à qual eu quero muito e mesmo que esse presente que seja você esteja longe, eu sempre irei te amar e esperar o tempo que for preciso só para ter esse presente que é você minha 'Bibiu'!

Agradeço muito a Deus por tudo que tem me proporcionado e mais uma vez à vocês pela oportunidade.


MUSA DE MARICÁ 2025

Como a PR PRODUÇÕES faz todos os anos no aniversário de Maricá (no mês de maio), escolhemos as Musas de Maricá. A produção do concurso não teve dúvida em escolher Julia Kopp (30) como a Musa Plus Size de Maricá 2025 (https://culturarteenpr.blogspot.com/2025/05/julia-silva-kopp-e-musa-plus-size-de.html).

A artista plástica Flávia Motta (64), foi escolhida a MUSA SÊNIOR DE MARICÁ 2025 (https://culturarteenpr.blogspot.com/2025/05/flavia-motta-e-musa-senior-de-marica.html).

E na categoria FIT, participando do processo de seleção e superando outras quatro candidatas, a PR PRODUÇÕES tem a honra de conceder do título de MUSA DE MARICÁ 2025, para nossa guerreira MARCELA FERNANDES DE MENEZES (CHELLA). 

Os certificados serão entregues em local e data a ser marcada brevemente. Parabéns às nossas Musas.



















domingo, 25 de maio de 2025

FLÁVIA MOTTA É A MUSA SÊNIOR DE MARICÁ 2025



"Entre Mergulhos e Voos"

O nome dela é Flávia Maria Paes da Motta e Albuquerque (64 - nome artístico Flávia Motta). Nasceu em 03 de dezembro de 1961. Filha mais nova de três irmãos, seus pais - Gilberto e Neide (foto abaixo) - são para ela nomes que ecoam força e afeto. 


Partida cedo

Seu pai partiu cedo demais. Flávia tinha apenas 6 anos, Gilberto apenas 43. Saiu orgulhoso e feliz para comprar a  lancheira da filha (era o seu primeiro dia na escola) mas sentiu-se mal na rua, pediu socorro, mas não acreditaram e nunca mais voltou.


Naquela época, ninguém explicava a morte para uma criança. Para Flávia, restou o silêncio, o vazio — e nasceram medos: medo de engolir e morrer, medo da água no umbigo, medo de dormir e não acordar. Medos que uma irmã de apenas 11 anos tentou aplacar com o que sabia: cuidado silencioso!!!


Sua mãe - Neide, mulher forte e incansável, transformou luto em ação. Passou em concursos, foi assessora de governador do estado do Rio, depois oficial de cartório. 


Arte nas veias 

Vinda da linhagem Cavalcanti de Albuquerque, Flávia também compartilha raízes com o grande artista Di Cavalcanti. Por parte do seu pai, sua bisavó Thereza Alexandrina Cabral de Mello era prima do poeta João Cabral de Melo Neto. Essa conexão com a arte e a cultura já estava no seu sangue desde sempre e se apossou de sua alma.


Pintora primitivista autodidata, entre 1999 e 2000 estudou na Escola do Parque Lage, onde mergulhou no universo das cores com a orientação do professor Israel Pedrosa. Usou como base teórica e prática o livro dele, "Da Cor à Cor Inexistente", que na época foi uma verdadeira bússola no seu processo artístico.


Trabalhos

Em julho de 2019, participou do lançamento da 12ª edição da revista Rio Arquitetura e Design com uma obra feita em parceria com o artista Augusto Cesar Gonçalves (@mosaicoeinteriores). 


Criaram um trabalho usando mosaico de pedra portuguesa e tinta acrílica sobre Eucatex. Em 2021, foi convidada para expor novamente com a revista, dessa vez no Barra Square Garden, junto com seu sócio Alexandre Guarany Tattoo, que aplicou sua técnica de pintura em peças de roupa. O tema da exposição era a cidade de Nova York, nos Estados Unidos, e contou com o patrocínio das Tintas Anjo, dentre outros apoiadores.


No fim de 2021, por conta da pandemia, se mudou para Maricá. Foi ai que conheceu uma grande artista local, 'Meg Carvalho', que acolheu e apresentou Flávia aos grupos de artistas da região. Desde então, a artista tem conseguido continuar fazendo o que mais ama nesta vida: 'a sua arte'.


Flávia participou de exposições no GAM (Grupo de Artistas de Maricá) e continua participando de exposições em vários espaços em Maricá, também troca experiências com outros artistas e segundo ela, segue se dedicando com 'o coração ao seu trabalho'.


Artista Plástica Flávia Motta

Para conhecer um pouco mais dos seus trabalhos e obras, ela participa das redes sociais Instagram e Facebook:


Instagram - @fl4vi4m0tt4 
Facebook - artflaviamotta

MUSA DE MARICÁ 2025

Como a PR PRODUÇÕES faz todos os anos no aniversário de Maricá (no mês de maio), escolhemos as Musas de Maricá. A produção do concurso não teve dúvida em escolher Julia Kopp (30) como a Musa Plus Size de Maricá 2025 (https://culturarteenpr.blogspot.com/2025/05/julia-silva-kopp-e-musa-plus-size-de.html).

Da mesma forma, a PR PRODUÇÕES não teve nenhuma dúvida em escolher a artista plástica Flávia Motta (64), como a MUSA SÊNIOR DE MARICÁ 2025 (https://culturarteenpr.blogspot.com/2025/05/flavia-motta-e-musa-senior-de-marica.html).

E na categoria FIT, participando do processo de seleção estão quatro candidatas e a vencedora será definida no domingo 25 pela organização do concurso e será divulgada na segunda feira dia 26, aniversário de 211 anos de Maricá.

Os certificados serão entregues em local e data a ser marcada brevemente. Parabéns às nossas Musas.








sexta-feira, 23 de maio de 2025

"DOCUMENTO SEM NOME": Um filme sobre visibilidade trans e travesti. A história de Darla Muniz!


O documentário "Documento Sem Nome" nasceu como um projeto acadêmico e evoluiu para uma obra de grande impacto social. Inspirado nas vivências das mulheres trans e travestis acolhidas pelo Casarão de Luana Muniz (foto abaixo), na Lapa, o filme revela a importância desse espaço como um refúgio de acolhimento, pertencimento e resistência.

A narrativa é conduzida simbolicamente pelo próprio casarão, que testemunhou incontáveis histórias de superação. 

Mulheres como Darla Muniz (foto acima), referência na administração do espaço, e Mirella Prado, uma de suas principais apoiadoras, compartilham suas trajetórias, enfrentamentos sociais, familiares e desafios no mercado de trabalho. 


Além delas, o psicólogo Mauro (foto abaixo), especialista em redução de danos, e outras mulheres acolhidas pelo espaço trazem relatos reais e emocionantes sobre suas vivências.

O título "Documento Sem Nome" reflete a invisibilidade que tantas mulheres trans e travestis enfrentam diariamente. Mas aqui, suas histórias são contadas com protagonismo, respeito e autenticidade.

Ficha Técnica:

🔹 Direção: Léo Oliveira & Willean Reis

🔹 Produção: Andreia Basílio & Isabelle Carvalho

🔹 Direção de Fotografia: Marcelo Filizola

🔹 Assistência de Câmera: Gabriel Rates

🔹 Edição: Léo Oliveira

🔹 Sonorização: Gabriel

🔹 Direção de Arte: Léo Oliveira

🔹 Cenografia: Léo Oliveira

🔹 Produção de Objetos: Andreia Basílio

🔹 Efeitos Especiais: Léo Oliveira

🔹 Assistência de Produção: Isabelle Carvalho

🔹 Iluminação: Léo Oliveira

🔹 Fotografia Still: Marcelo Filizola

Elenco:

Darla Muniz, Mirella Prado, Sofia Gabrielli, Bruno Muniz, Rhiane Fendi, Kawane, Mariana Machado, Brian Muniz


 "Ainda ontem encontrei você na rua, 
e notei que ao me ver se entristeceu.
A confusão que eu tinha já morreu, 
mas parece que a sua continua.

Se eu for te julgar a culpa é sua, 
se você for me julgar a culpa é minha 
De uma forma ou de outra assim caminha...

E com culpa ou sem culpa a gente vive
Eu buscava em você o que eu não tive 
E você procurava o que eu não tinha"

Sofia Gabrielly - travesti e escritora



'Travesti na família do outro é lindo, mas na sua fica mais complexo', a história de Darla Muniz

Em um sobrado datado de 1908, situado em uma das ruas mais emblemáticas da Lapa, zona boêmia do Rio de Janeiro, morou uma personalidade amada e temida, uma figura quase mítica: a travesti Luana Muniz, conhecida como a 'rainha da Lapa'.


Luana ficou conhecida depois que apareceu no programa 'Profissão Repórter', em 2010, e esbravejou a frase "Tá pensando que travesti é bagunça?"

No casarão moravam outras mulheres trans que, assim como ela, viviam do mercado do sexo.

Com a morte de Luana em 2017, vítima de uma pneumonia, sua afilhada Darla Muniz, 27, assumiu seu legado, o casarão e as atividades sociais desenvolvidas por Luana. Ela foi uma das fundadoras do projeto Damas da Prefeitura, que capacitava travestis e transexuais para o mercado de trabalho, além de ter presidido a Associação das Profissionais do Sexo do Gênero Travesti, Transexuais e Transformistas do Rio de Janeiro.

Darla recebeu Universa para uma conversa em uma sala com um imenso mural de imagens de Luana em diferentes momentos. Ela esboça os mesmos trejeitos de sua madrinha. Alta, corpo esculpido pelo silicone, unhas longas assim como as madeixas loiras.


Luana viu Darla crescer

"Acompanhei Luana durante toda a vida, eu a estudei desde os seis anos quando toquei a mão dela e disse que unhas maravilhosas", conta. O vínculo entre as duas surgiu antes mesmo de ela nascer, em 1996. A mãe de Darla trabalhava como stripper em uma boate na Lapa, na década de 1970, enquanto Luana atuava na rua.

A amizade entre as duas fez com que a travesti acompanhasse o crescimento da afilhada e de seus três irmãos, que moravam em um prédio antigo ao lado do casarão de Muniz.

Ainda assim, a família não compreendeu quando ela questionou o seu gênero masculino e o acolhimento veio de Luana.


"Travesti na família do outro é lindo, mas quando é na sua tudo fica mais complexo. Comecei minha transição sozinha e a única pessoa que me ajudou foi a Luana".

Após três anos difíceis pela perda da madrinha, ela deu continuidade às suas atividades. "Fui atacada por todos por ser muito jovem, achavam que eu queria tomar o lugar dela, não entendiam que não queria estar nessa posição, mas foi conspirado pelo universo para que estivesse aqui hoje", diz.

O Casarão de Luana Muniz abriga 18 pessoas (17 trans e um rapaz não binário) que encontraram ali mais que um teto, um elo familiar.

Darla conduz tudo, coordena os projetos sociais realizados no sobrado para as profissionais do sexo, por meio da Associação das Travestis Prostitutas Sementes de Luana Muniz. Também está em ações sociais externas que auxiliam pessoas em situação de vulnerabilidade social, e ainda comanda um podcast criado recentemente (https://www.youtube.com/@CasaraoDeLuanaMuniz_Oficial).


Mas ela não trabalha sozinha, sua esposa, Mirella Prado, é seu braço direito em tudo. Juntas há oito anos, a relação já foi alvo de críticas por serem transexuais. "Quem disse que sendo travesti tenho que ficar com um homem? Onde tá escrito isso? É muita ignorância", responde ela engrossando a voz no melhor estilo Luana de ser.

"Sou uma travesti de 27 anos, presidente de uma associação de uma instituição existente há 45 anos que dá continuidade ao projeto social de Luana Muniz, famosa pela frase: 'travesti não é bagunça'".

Muitas responsabilidades para pouca idade

A tarefa é árdua e os desafios são diários. Um deles é obter a posse definitiva do imóvel de 116 anos. "Supostos herdeiros dizem que são donos e entraram com um pedido de reintegração de posse, mas estamos aqui."

Dona de uma presença marcante, Darla explica, mexendo as longas unhas vermelhas, como funciona o casarão e suas atividades. Nos 15 quartos, localizados na parte dos fundos, moram as meninas que trabalham no mercado do sexo. No espaço da frente, onde estão as áreas comuns, funciona a associação onde acontecem oficinas de maquiagem, corte e costura, rodas de conversa sobre ISTs, atendimento jurídico, de saúde mental, requalificação de gênero (nome social), palestras e eventos.


A Sementes atende 287 pessoas cadastradas (de qualquer orientação sexual) com cestas básicas, cujos itens alimentícios são doados mensalmente pelo espaço cultural Circo Voador. Darla e as meninas fazem a triagem, ficam com uma parte para sua própria alimentação, e a outra vai para a montagem das cestas.

"Só pode falar o que é fome quem já passou por ela. Graças a Deus, hoje no casarão não se passa fome porque temos esse apoio".

Mas a demanda pode ir além de comida, e pode incluir até cadeira de rodas e fraldas geriátricas. À noite, como um mutirão, elas caminham pelas ruas do bairro distribuindo um kit com preservativo e gel para as trabalhadoras do sexo.

Indagada sobre como consegue dar conta de tudo sendo tão jovem, ela desabafa: "Tem horas que sento aqui na sala, olho pra essas fotos e choro, é uma demanda gigantesca, além dos pedidos de ajuda do bairro".


Ela explica que às vezes travestis de fora acabam causando problemas na região, e ela é chamada para pôr ordem como uma espécie de xerife da Lapa. "Para a sociedade, travesti é tudo igual, e não é bem assim. A classe inteira é conotada como perigosa devido a meia dúzia. Vamos supor... Se 20% roubam, já acham que 100% é marginal", diz ela que faz parte do conselho de segurança do bairro.

Vidas entrelaçadas e críticas a militância

Assim como sua madrinha, Darla também vive do sexo pago, mas atualmente atende apenas por site, "a prostituição foi boa nos anos 70 e 80, hoje em dia ela está sendo extinta, devido aos aplicativos de encontros, o sexo ficou muito acessível".

Seu início na prostituição se assemelha ao de sua musa inspiradora, e impressiona pela precocidade. "Foi aos nove anos, sempre fui grandona, parecia ter 13, já tinha a malícia da prostituição, ele devia ter 70, ninguém soube."

Foi o início de um caminho que perdura até hoje. Segundo ela, Luana não aceitava nada que fosse ilegal e quando descobriu que a afilhada estava se prostituindo, anos depois, ouviu uma sonora bronca. "Ela me proibiu de ir a todos os hotéis do bairro, e avisava aos donos 'se deixar ela entrar vou chamar a polícia porque ela é menor'."


Darla também não poupa críticas ao movimento, sem dar detalhes ou nomes. Ela afirma existir uma higienização dos termos usados no passado. "Higienizaram a palavra travesti, e jamais quero isso, porque quando você invisibiliza você esquece da história, que começou com as travestis na década de 1960", diz ela salientando que Luana era da segunda geração de travestis.

As travestis do passado não são faladas, as que são agora é a travesti vereadora, a travesti deputada, porque querem esquecer as pioneiras, mas para elas estarem hoje no poder, alguém lá atrás lutou e muitas morreram.

Darla contextualiza argumentando que um dos motivos para a criação do podcast foi dar visibilidade à história do casarão ao longo desses 45 anos. "Não tem a atenção merecida, o movimento oculta essa visibilidade pelo fato desta casa ser um espaço voltado para travestis prostitutas".

"Ser travesti é a busca infinita de formas e maneiras femininas, as maneiras você aprende com as mulheres, com as grandes divas, principalmente, e as mulheres que me inspiram são Luana, Roberta Close e Rogéria."

Políticas públicas e empregabilidade

A dona de curvas generosas é vista como uma líder e também conselheira pelas jovens trans que vivem no casarão, principalmente quando o assunto é velhice e prostituição a longo prazo. Para ela, o objetivo das rodas de conversa é dar um norte a essas meninas que, em sua maioria, não possuem um planejamento para o futuro.


"A travesti jovem é linda, e quando a idade chegar? Tem que fazer um pé de meia quando estiver mais velha e cansada da prostituição, porque cansa, desgasta o psicológico, tem horas que você fica enojada"

Por isso ela reforça que pautas como educação e saúde são importantes para ter um foco quando a mocidade passar. E enfatiza a necessidade de políticas públicas para as travestis prostitutas.

"Todas queremos estudar, queremos um emprego, mas também queremos respeito nesses locais, é muito complexo dizer que tem emprego para nós, mas essa travesti conseguirá ficar no emprego diante do preconceito que ela sofrerá?"

Para a presidente da associação, uma das soluções seria a capacitação de profissionais em todas as áreas, principalmente educação, saúde e segurança pública, para saber lidar com aqueles que estão na ponta. "Nós somos a ponta que ainda estamos nas margens da prostituição."


O futuro das sementes de Luana

Darla tem muitos sonhos, mas sempre pensando no coletivo. Ainda este ano, pretende retomar os estudos e planeja cursar direito. Sobre o futuro do casarão e da associação Sementes, ela tem planos grandiosos. "Quero que este espaço seja tombado e se torne um patrimônio cultural das travestis prostitutas."

Darla não é uma cópia de Luana, como muitos já a rotularam, ela tem personalidade própria e um grande obstáculo pela frente: dar seguimento ao legado e preservar a memória de sua madrinha para que ela não caia no esquecimento. "A história de Luana não vai terminar aqui, e nunca irá, porque depois que eu partir, outra pessoa dará continuidade à nossa história e trabalho", avisa.

O Casarão de Luana Muniz está aberto a visitação e aceita doações de alimentos, roupas, itens de higiene pessoal e limpeza.


Texto original da reportagem: André Aram Colaboração para Universa (UOL)
Texto adaptado e pesquisa: Pery Salgado (jornalista)
Realização: PR PRODUÇÕES